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Jornalistas erram e acertam na decoração, assim como nós.​

Para muitos que estão há semanas dentro de casa um dos pensamentos recorrentes, entre as inúmeras tarefas do dia a dia, é uma longa lista de pendências do lar provocando a todo instante – o quadro no chão esperando um prego, aquela planta ao canto implorando por um pouco de atenção ou mesmo aquele projeto de trocar os móveis de lugar e pintar uma parede. Tarefas que por algum motivo sempre ficam para depois.

 

O principal deles é uma real preocupação com os acontecimentos ao redor do mundo com relação ao COVID-19 e seus desdobramentos: passamos bastante tempo acompanhando as notícias por meio de dos comentaristas dos telejornais que, assim como nós, tem em sua maioria cumprido com seu papel e se mantido em casa. E o quão reconfortante é ver que suas casas também são essa mistura imperfeita de acertos e erros, sempre com uma estante de livros para chamar de sua. 

 

Longe dos exageros ou tendências, os recursos à disposição para criar um clima aconchegante nessas transmissões são na verdade bastante simples: luz, cor, materiais e natureza. O que vai ditar o equilíbrio entre esses elementos é a proporção do espaço e a imagem pretendida, mas todos são importantes para uma composição que transmita a sensação do todo, uma amostra de como vivemos.

 

Criar uma cena de luz ideal significa também cuidar de sua sombra e o mais aconselhável é sempre rebatê-la numa superfície neutra ou torná-la difusa. Cuidado também para o fundo nunca estar mais iluminado que o personagem em primeiro plano, caso contrário o contraste se torna bastante incômodo. Já cor e materiais devem ser incorporados em quadro de maneira harmoniosa, com tons e texturas que se complementem enquanto quebram a monotonia. Do mesmo modo que uma almofada dá nova vida a um sofá ou um quadro preenche a parede. Outros objetos, como vasos, lembranças de viagem, ou plantas também são sempre bem vindos como elementos pontuais de destaque e personalidade.  

 

O melhor exemplo possamos tirar das transmissões da jornalista Cecília Malan, onde em um único enquadramento consegue trazer um bom resumo dessa simplicidade. Ao escolher um canto em ângulo, não um fundo chapado, ela cria uma atraente sensação de perspectiva e trás interessante textura de tijolos que contextualiza o ambiente. A luz natural entra pela janela lateral à mostra de forma uniforme, suavizando sombras enquanto também ilumina algumas plantas espalhadas. Ao final unem-se à esse contexto objetos e obras de arte que dão caráter ao espaço e completam a sensação de pertencimento real. 

 

Talvez então a solução mais simples seja mesmo se posicionar diante de uma parede repleta de livros, mas a verdade é que uma estante bem montada é como uma cenografia da sua vida e por isso exige uma dedicação redobrada. Pra começar, é necessário equilíbrio - trabalhar com recursos como proporção e composição para criar cheios e vazios, diferentes alturas, recortes temáticos, harmonia de cores e formas; e finalmente objetos simbólicos. Passear por ela é um exercício mental de memória, atenção, paciência e experiência; um exercício de auto-conhecimento e comunicação.

 

Tornou-se impossível assistir ao Gregorio Duvivier gravando da casa de sua mãe sem reparar na elegância despojada do belo móvel em madeira com um vinil do Cartola junto aos livros “surrados” e objetos pessoais espalhados com maestria. O que por outro lado é levado ao extremo da abstração no embate de altíssimo nível entre Jorge Pontual (direto de Nova Iorque) e Ariel Palacios (Buenos Aires) que nos revelam diariamente um universo caótico e instigante de histórias físicas amontoadas ao fundo. Fico fantasiando o instante em que para citar um autor ou frase célebre eles precisam se voltar pra trás e encontrar o livro correspondente.  

 

Mas nossos lares não se resumem à um canto fotogênico, muito menos à tristes paredes brancas que muitos insistem em utilizar, e no concorrido mundo dos Late Shows ninguém parece ter entendido melhor isso do que o comediante norte-americano Jimmy Fallon. O absolutamente genérico cenário de skyline urbano ao fundo e materiais insignificantes deram lugar à uma casa tão exagerada e divertida quanto a própria personalidade do apresentador. Cada segmento do programa mostra um ambiente diferente - desde  cômodos em amarelo vivo, papeis de parede estampados e salas rústicas com muita madeira até um lúdico sótão para suas filhas com direito à um escorregador interno. Nada grita exatamente bom gosto, mas com certeza surpreende e entretém.

 

Nossas casas são abrigos projetados para uma vida específica que não pode ser definida por estilos ou modismos, somos muito mais complexos (e sensíveis) do que isso. O cuidado com o espaço interno não é um luxo como muitos pensam, mas sim uma ferramenta poderosa à serviço do bem-estar, afinal o design faz parte da experiência humana diária. Então se a casa é um reflexo de nossa personalidade, precisamos dialogar mais com ela e nada melhor do que usar a tela do computador ou celular como um espelho para essa reflexão.

Folha S. Paulo

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