O PAPEL DO DESIGN

No mundo do design não existe material mais importante do que o papel – nele se manifestam as ideias, os primeiros rascunhos de um projeto, surgem modelos de estudo e, até mesmo, peças finais para o consumo.

A cultura oriental explorou muito bem, há séculos atrás, as possibilidades desse material e aliou seu olhar sensível às características físicas do papel, principalmente no uso como elemento capaz de gerar uma superfície homogênea e translúcida, como no caso do shōji – as tradicionais divisórias empregadas na arquitetura japonesa. No mundo do design poucos se destacaram tanto quanto Isamu Noguchi, artista que se consagrou nos anos 50 com sua série de esculturas-luminárias, ícones do design moderno e objetos de desejo até hoje.

Nos anos 60 foi a vez dos móveis em papelão se popularizarem, pelo seu baixo custo e leveza, instigando novas experiências com o material e o surgimento de novos clássicos, como a cadeira Wiggle (1972), inteira em papelão, do arquiteto Frank Gehry. No entanto, a partir desse momento o plástico roubou a cena, dominando o mercado nas décadas seguintes.

Foi a crise econômica dos anos 2000 e a crescente preocupação com aspectos sustentáveis que reintroduziu a busca por novas técnicas de baixo custo e processos de baixo impacto ambiental. Nesse cenário se destaca o trabalho do brasileiro Domingos Tótora, que há mais de 15 anos transforma o papelão reciclado em peças de design-arte. Em seu processo de criação o material é triturado em pequenos pedaços e transformado numa massa, então moldada a mão até se tornar um objeto de beleza ímpar, inspirado pela natureza que o cerca em Maria da Fé, Minas Gerais. 

Mas o papel não se presta apenas ao universo do Upcycling (reaproveitamento de materiais e produtos descartados). O trabalho de Tótora se alia ao discurso de um grande contingente de novos designers que se valem de sua plasticidade e inumeras possibilidades para explorar conceitos em produtos muito mais preocupados com expressão emocional do que funcionalidade.

           

Esse é o caso do espanhol Nacho Carbonell, premiado designer com peças espalhadas por importantes museus do mundo. Em suas obras, telas metálicas são revestidas manualmente com a polpa de papel reciclado, criando texturas únicas e formas que causam estranhesa, simbolizando grutas que buscam abrigar o usuário e trazer um senso paz frente um mundo que nos envolve em excesso de informação o tempo todo.

Com proposta semelhante, o designer Iain Howlett, desenvolveu em seu estudio londrino a coleção Paper Clay, formada por peças coloridas que se valem dessa leveza e durabilidade do material. Ou ainda a série Bark, em que cascas de árvores são trituradas e misturadas à massa de papel, dando ao objeto um tom e forma próximos ao mundo vegetal.

           

Ainda nessa relação entre a origem e o destino final do material um outro caminho é o seguido pelo estúdio de Mieke Meijer, responsável pela criação do NewspaperWood, inventado em parceria com a marca holandesa Vij5. A criação reverte o processo usual da madeira que se transforma em papel criando, a partir de jornais recolhidos, blocos sólidos e resistentes do material que quando fatiado apresenta veios e camadas similares ao original.

           

E se o papel pode ser tratado como tal por que não esculpi-lo do mesmo modo? É essa uma das linhas de pesquisa da designer Pia Wüstenberg. Entitulada Processed Paper, a criação consciste na mistura de papéis em diferentes cores e texturas enrolados e levados ao torno para serem esculpidos, formando de luminárias à móveis multi-coloridos.

           

É nessa relação entre origem, sensibilidade e criatividade que reside a maior força do design atual. Um design que flerta com a arte e busca soluções inspiradoras que aliam o belo e o estranho ao mesmo passo que nos torna mais conscientes do que consumimos. Que transforma um esboço no papel em algo tão valioso quanto a própria madeira.

O QUE

Artigo

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Bazaar Art magazine

QUANDO

2015 

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